Saturday, November 29, 2008

IMAN Un-controlled


Alguma expectativa para o Festival IMAN em 2008, dirigido por Alexandre a. r. Costa em Famalicão e agora com extensão em Berlim. A «primeira fase» do evento deste ano, em que a iniciativa chega a cinco anos de existência, integra, em torno da pseudo dicotomia 'un-controlled', Marisa Teixeira, Bruno Jamaica, Carlos Sousa e Nádia Duvall [todos formados na ESAD.CR] e Pedro Penilo…

Penilo apresentará «Presépio Polar», de cujos textos preparatórios deixamos aqui alguns excertos:

«O impulso original deste projecto foi não dedicar-me apenas à concepção e realização de um objecto artístico material mas testar o que acontece quando eliminamos o objecto e fica apenas a experiência dele, a memória e o mais difundido meio de troca de informação: a palavra; e sobretudo, a palavra falada.

Não sou asceta, a materialidade das coisas, o seu cheiro e tacto não me causam estorvo. Até por isso decidi tomar como objecto/tema do meu projecto não uma instalação apenas imaginada, mas uma instalação materialmente realizada e, para mim, válida do ponto de vista da sua qualidade artística. Só que estou mais perto do escritor do que do escultor, deleito-me muitas vezes com a ideia do que poderia ter sido.

[…]

Quem preferiria a narração de um filme ao próprio filme? Poucos seguramente quando a questão é o filme. Mas poucos preferirão um filme a um amigo. E um amigo narra um filme. Na era dos fenómenos e meios de comunicação massivos a arte perdeu a escala pessoal. Rimo-nos em conjunto no cinema sem nos darmos conta de que há alguém que não tem vontade de rir. Os tempos são estes e são assim mesmo fascinantes. Mas há pouca arte de olhos nos olhos.»

Vai ser mesmo preciso 'estar lá'… e daí, talvez não. Fica ao controlo de cada um…

Simeon Nelson, criptógrafo!




Simeon Nelson é australiano, residindo na capital inglesa. É docente de Escultura na Universidade de Hertfordshire e co-director da Elastica Residence, em Londres.
Durante uma residência artística na Royal Geographical Society, que durou 15 meses, investigou milhares de mapas, os mais antigos já do século XV. A partir de uma abordagem dos mapas que consideram localizações físicas para lugares míticos, assim como da evolução da cartografia ocidental, desenvolveu o projecto «Cryptosphere», que o artista encara como «a soma de toda a informação retida e escondida num determinado sistema». Neste seu novo corpo de trabalho, é particularmente importante a localização do mitológico e do ornamental no mundo temporal.

Cryptosphere é uma peça que funciona como instalação escultórica: é uma estrutura arquitectural inspirada na cartografia, procurando criar ornamentos ambíguos, que a estrutura modular permite transformar numa forma de ocupação extremamente versátil do espaço. As unidades modulares são organizadas como uma pirâmide cruciforme e cristalina, remetendo-nos vagamente para vários tipos de geometrias arquitectónicas sagradas, criando um não-lugar ambíguo, part of and yet not part of the Earth…

Por vezes, há artistas que conseguem aliar o alcance histórico-mítico à maior delicadeza processual , desviando a política dos lugares comuns para uma praxis subtil…

Thursday, November 20, 2008

Maya & Purnelle – «Bandeiras Humanas» à 24 de Julho






Nuno Maya [n. 1978] e Carole Purnelle [n. 1964] são uma dupla de artistas cujo trabalho tem percorrido linguagens e âmbitos muito diversos, sempre resulta(n)do de um trabalho subtil sobre o dispositivo que elabora a percepção. Nas suas «Pinturas de Luz» há uma interacção entre o mundo virtual da projecção multimédia e o real dos elementos arquitecturais da superfície de projecção… são intervenções efémeras em fachadas, com grande potencialidade comunicativa.

Novembro de 2008. «Bandeiras Humanas» resulta de um convite de Jean-Paul Lefèbvre para que se encontrasse artistas capazes de criar uma obra para o exterior do Palácio de Santos [Embaixada Francesa em Lisboa], e assim celebrar a presidência francesa da União Europeia. O processo de produção envolveu a comunidade francesa residente em Portugal, numa colaboração que passou pela recolha de ‘retratos vivos’ de mais de duas dezenas de pessoas, visando a projecção no espaço público.

A obra é cinematográfica. As pessoas deslocam-se num universo desmaterializado. Projectadas à escala 1:1 e «coloridas» digitalmente, vão-se colocando em determinadas posições, até formar a bandeira francesa. O movimento é fluído, sereno. Depois de uma pausa, as pessoas colocam-se de novo em movimento e formam a bandeira europeia: doze das pessoas simbolizam as estrelas. Finalmente, novo movimento e nova bandeira…

Os criadores passam uma mensagem – os países e as instituições são as pessoas. A obra, interactiva e participada, dá rosto humano a ideias abstractas. Integrada na vida urbana, devolve-nos a ideia da comunidade em construção, no quotidiano, na rua.

O registo da experiência pode ser visto em www.ocubo.com/virtualhumanflags

Nuno e Maya não puderam estar presentes na inauguração porque… estavam em Eindhoven para apresentar os seus «Azulejos Humanos».

O evento integrou a iniciativa LUMIÈRE TOUJOURS que apresentou em simultâneo, no interior do Palácio de Santos, obras de Pedro Cabrita Reis, João Paulo Feliciano [ a ], Nuno da Silva, Martinha Maia e Perrine Lacroix.

Wednesday, April 16, 2008

Pedro Penilo, sinais de fogo






Se a inteligência queima, os dedos e os neurónios, se a distância morre às portas do gesto, então de que valem pseudopoemas apressados e presunçosos perante o desenho, a performance, os conceitos, a estruturação e o rigor intelectual de Penilo? Mostram-se aqui um sinal, um mapa e uma fotografia.
O Mapa é do Largo do Carmo, o Sinal da Pintura como universo de significados, a fotografia comentário oblíquo ao poder dos media.

Para ver a sua obra clique no título desta entrada.

Wednesday, March 12, 2008

TOM ROBINSON BAND 2-4-6-8 MOTORWAY

Os clássicos pop-rock-pre-pós-punk têm sempre qualquer coisa de incompreensível, indescritível e sobretudo viciante…
TRB, neste tema. é virtualmente o hino da adolescência…

E a letra!?

Drive my truck midway to the motorway station
Fairlane cruiser coming up on the left hand side
Headlight shining, driving rain on the window frame
Little young Lady Stardust hitching a ride... and it's

Whizzkid sitting pretty on your two-wheel stallion
This ol' ten-ton lorry got a bead on you
Ain't no use setting up with a bad companion
Ain't nobody get the better of you-know-who

Battles (3-30-07, Empty Bottle, Chicago - ENTIRE CONCERT)

Ao vivo não têm o glamour 'arte contemporânea' do vídeo de Tonto, mas ganham em energia pura…

Battles - Tonto (from the album Mirrored)

Para quem se interesse por um mínimo de estranheza audível – e cujos discos de Van der Graaf, The Fall ou Einstürzende Neubauten estejam a ficar gastos, eis um pequeno prazer oferecido pela contemporaneidade.

Interessa sobremaneira o som – mantras pseudo complexos com o groove rock lá dentro, mas não menos impactante, pelo menos no palco do google, este delicioso vídeo-luz: creio que pelos particularmente inspirados United Visual Artists, de Londres.

Negrume neo-matemático, mas com a alma iluminada.

Saturday, March 8, 2008

Amigos da onça I: António Contador


Por conta e risco de cada um.

http://www.myspace.com/antoniocontador

Ou ainda

http://www.bodyspace.net/artigos.php?rub_id=101

MANUFAKTOR ou a doce anarquia dos bichos da cidade












Cristiano Mira, Nuno Pereira, Bruno Perdiz e Hélder Alfaiate são os MANUFAKTOR [manufactor2006@gmail.com], colectivo de artistas sedeado em Caldas da Rainha e com umbilical ligação à ESAD.CR. Um trabalho colectivo – enquanto as esparsas solicitações de juventude o permitem – para desfrutar como oásis de falsa ingenuidade. Figuras e formas compostas-compósitas, desenhadas com metódico abandono – em transe? –, remetendo para muitos imaginários amalgamados, surgem na actualidade como possibilidade de uma arte estranhamente decorativa para o poder mágico, hipnótico e desestabilizador que tem. Num quarto, numa galeria, nas páginas de um fanzine, na cidade – a cultura dos stickers está-lhes na pele –, o 'factor-mão' é afinal signo de uma doce anarquia. Apareçam, que crescidos já estão!

John Roberts – Leitura obrigatória!




A descoberta de um autor incontornável para uma Teoria decente sobre Arte Contemporânea…

John Roberts
The Intangibilities of Form: Skill and Deskilling in Art After the Readymade

Many people who look at art today decry it for the lack of craft skill in its production, whether it be painting, photography or sculpture. In "Intangibilities of Form", John Roberts sheds an entirely new light on this obsolescence of traditional craft skills in contemporary art, exploring the technological and social developments that gave rise to those postmodern theories that suggest that art may not require an author and certainly not one with any technical ability. Envisioning Marcel Duchamp as a theorist of artistic labour, Roberts describes how he opened up new circuits of authorship to the artist. He then looks at how these approaches proliferated in art after the 1960s and in the rise of Conceptual art. In explaining why the question of authorship has been so fundamental to avant-garde art and neo-avant-garde in the 20th century, "The Intangibilities of Form" is a formidable history of the hidden labours of the artwork.

In http://www.amazon.co.uk/Intangibilities-Form-Skill-Deskilling-Readymade/dp/1844671674

Bruno Jamaica vs Bruno Jamaica – A Arte continua!

É só continuar a acompanhar o trabalho deste jovem artista…

http://bm81.blogspot.com/

Lyon, Fête des Lumières, uma viagem sentimental












Lyon. Viagem sentimental

Lyon é uma cidade francesa onde vive milhão e meio de habitantes. Em Dezembro, anualmente, um esforço conjunto de entidades municipais, eclesiásticas, empresas e instituições dá corpo a uma celebração da Luz muito particular: a Fête des Lumières .


Espírito de celebração

Na verdade, o Município actualizou e dinamizou uma tradição religiosa antiga, a de celebrar o 8 de Dezembro [ver caixa], num evento que alia emoções espirituais a um certo sentido de destino colectivo. De forma progressiva, mas imparável, Lyon adaptou tal celebração às exigências de marketing, imagem, afluência e consumo que hoje parecem constituir o essencial da ementa saudável de qualquer cidade contemporânea que assuma para o seu Projecto Urbano uma estratégia clara de posicionamento próprio no mercado competitivo das urbes europeias.
Em Lyon, um princípio salta à vista: o desejo de trabalhar o tema da Luz exaustivamente, em vários domínios da actividade – urbanístico, empresarial, cultural –; esse desejo, nem sempre levado ainda tão longe quanto possível pelas autoridades, gera ainda assim uma dinâmica que depois o ultrapassa: durante a Festa das Luzes, Lyon recebe environ 4 milhões de pessoas nas suas ruas, números que autorizam a todo os seus responsáveis efusivas extrapolações! De facto, não há um hotel com quartos disponíveis, não há mesas vagas nos restaurantes, é grande a dificuldade de circular em determinadas ruas apinhadas de gente… Durante quatro dias – a estratégia é a da condensação temporal dos eventos –, um cocktail de ideias feitas, criatividade, investimento, boa vontade e uma elegância toda ela francesa – afinal França é o País do savoir faire – criam um evento que, apesar de profundas mudanças ao longo dos tempos, é o ex-libris da cidade e da região. E se a Festa das Luzes – hoje celebração com clara vertente espectacular, tecnologicamente evoluída, tirando partido de todas as armas da comunicação em contexto urbano, da iluminação pública aos painéis publicitários – mantém e aumenta o seu poder de atracção de ano para ano, será interessante perceber porquê e de que maneira as decisões estratégicas que estão por detrás têm sido fundamentais para este sucesso.


Ovo de Colombo: a Luz Urbana

A Luz foi o ‘ovo de Colombo’ que as autoridade souberam aproveitar. Um bem aproveitado traço popular ancestral e de boa vontade espiritual foi o cadinho para uma canalização, na actualidade, de toda a energia positiva de uma cidade, em prol de uma visão moderna da vida urbana, corolário de estratégias concretas que vêm de trás, desenvolvidas com alguma regularidade desde há cerca de três décadas e entretanto absolutamente consolidadas [desde há 10 anos]. Das primeiras ideias do designer-de-luz Laurent Fachard [director artístico das primeiras edições e que desenvolveu a base para o que a Fête des Lumières é hoje], à ideia-farol que foi tornar Lyon a cidade-mãe da rede mundial de cidades-luz, a LUCI , o que se vê na actualidade é uma cidade autorizar a um evento seu a mobilidade e a visão de o ir adaptando a diferentes objectivos parcelares, mas sempre complementares. Se por exemplo, em 2005, a curadoria da Festa das Luzes, por Claire Peillod, foi orientada para a arte contemporânea, a edição de 2007 procurou o compromisso ‘espectáculo-arte-educação’ – mas em nenhum momento deste percurso foi pervertida a dimensão original e fundadora: um travo religiososo e espiritual que se revela pretexto para uma festa social com uma dimensão de Festival Urbano, de que não há muitos mais exemplos na Europa ou a nível mundial.

Nichos

Este tipo de escala de intervenção – com um investimento em comunicação evidente e bairros inteiros cortados ao trânsito viário, para permitir a circulação dos transeuntes – vive por outro lado da atenção aos diferentes nichos de mercado cultural, sem os quais este tipo de evento se tornaria uma mera manifestação de massas sem interesse crítico ou estratégico. Assim, é possível estar em Lyon e até, altivamente, desprezar as manifestações mais espectaculares e populares, para seguir percursos alternativos em bairros não-turísticos – o sub-festival Superflux, organizado pela Galeria Roger Tator e subvencionado como ‘Evento-Off’ pela própria Fête é um exemplo da aplicação de fundos mínimos com resultados evidentes. Ou aproveitar para deitar olho à Bienal de Arte Contemporânea de Lyon que decorre, naturalmente, durante o mesmo período.
Para o que interessa a esta publicação, a Festa de Lyon deve ser entendida como uma operação, em grande escala, de atracção de intelligentsia, opinion-makers, criadores, marketeers, empresários, técnicos, e naturalmente muito público, que ali se deslocam para ver uma cidade com projecto e simultaneamente gente disponível para esse projecto, em rara simbiose. Em festa.
Na prática, surgem então as ocasiões para encontros profissionais específicos, que tiram proveito da magia envolvente para atrair participantes. Foi o caso da emergemte INFL – International Network of Festivals of Light, que reúne de forma informal, se bem que com o apoio logístico e organizacional não apenas da cidade de Lyon, como da holandesa Eindhoven – não apenas os directores de diferentes Festivais de Luz pela Europa fora – de Lyon a Eindhoven, de Glasgow a Lisboa, de Ljubljana a Helsínquia –, mas também profissionais, representantes de empresas de equipamentos, docentes e estudantes universitários, com algo em comum: a ideia de que a Luz é um tópico central da Cultura e da Cidade contemporâneas. Em suma, a cidade engalana-se para fornecer oportunidades de convívio, negócio, fruição aos seus visitantes, recolhendo um capital de simpatia, notoriedade e memorabilidade excepcional.


Imagens de sonho

Uma cidade é feita das imagens que dela vamos construindo – a Nova Iorque dos filmes [e em particular de Woody Allen], a Veneza da Bienal ou de Visconti, a Marraquexe da Praça Jemaa el Fna [eternizada por Hitchcock n’O Homem que sabia demais ou ‘apropriada’ por Page e Plant no DVD No Quarter…] – imagens mediatizadas competem brutalmente com a vivência pessoal que possamos ter/vir a ter dos espaços em si – essa é a sua força persuasora. Este é tempo da Imagem e de celebração de uma omnipotente e veloz cultura retiniana. Mas curiosamente, Lyon apostou num acontecimento que mantém, ao mesmo tempo, uma extraordinária capacidade de valorizar o factor humano e convivial, aliando a tecnologia e a criatividade dos iluminadores a um contexto popular [bancas de ‘comes e bebes’, vinho quente a cada esquina…] que torna o acontecimento muito mais memorável que uma experiência puramente visual [sempre mais intelectual e menos total]. Isto explica que alguns dos mais interessantes projectos fossem por exemplo os realizados por estudantes , porque concretizados com garra e risco nos bairros onde as ruas eram mais à escala humana e do contacto físico [obrigatório, tal a mole de gente e a sua sofreguidão em ver na íntegra, programa na mão, as dezenas de peças…].
Depois há a questão da gestão da imagem ‘panorâmica’ da cidade-evento: de ambas as margens do Sena, havia perspectivas que durante qualquer passeio se sucediam e peças – como a dos cubos dinamicamente iluminados do interior – que funcionavam como mágicos pólos de atracção das pessoas, quer a uma grande distância, quer na proximidade.
As fotos são da designer sérvia/sueca Aleksandra Stratimirovic e da artista austríaca Teresa del Mar.

Varini em Londres






Este artista suíço desarma-nos pela simplicidade do conceito, a evidência do gesto. Tem nova intrevenção urbana em Londres.

De um único ponto, num local único, será possível experimentar a obra em pleno [enfim, não é bem assim, claro…]. O público terá de procurar, individualmente, o ponto exacto para desfrutar uma experiência visual [mas não só, claro…], extremamente individualizada, de arte urbana: a cidade abraçada por um gesto gráfico e geométrico, prodígio de produção e paciência.
Tecnicamente, trata-se escolher uma perspectiva sobre a cidade e de colar pedaços de papel colorido nos locais exactos de um conjunto de superfícies dessa paisagem, por forma a simular na perfeição uma pintura da realidade física da cidade, sendo revelada – a cada observador e apenas a cada um de cada vez – a perfeição geométrica de uma forma simples e universalmente perceptível.

O artista aplica aspectos formais da OP Art à realidade quotidiana, numa monumental performance baseada no olhar, em que é inerente uma particular posição simultanemante fisica e simbólica dos espectadores perante a obra (e a cidade-paisagem), uma posição que pressupõe, paradoxalmente, que o punctum artístico é igualmente consciencializado por pessoas fisicamente distantes umas das outras.

Javier Núñez Gasco. O ready-made institucional mete medo?



A prática artística de Javier de Nuñez Gasco investiga empiricamente, através de processos performativos, as patologias do nosso meio social. Sentindo-se e responsável pela consciência colectiva, cuja exploração integral, disfarçada de ironia, é objecto da sua vida e da sua obra, Gasco acede à sublimação do facto artístico, uma religião unipessoal, nihilismo consumado. Doce combustão do instersíicio. A Arte terá sempre a sua sombra, mas esta é em Gasco a desmultiplicada plasticidade do social.

Trabalhos recentes como as Resting Pieces são extraordinários modelos de criação, produção, fruição e gestão artística, mas aqui se dá conta, por ora, da peça realizada para a Luzboa em 2007: Misérias

Enquanto trabalho-em-progresso, Misérias Ilimitadas consiste na constituição de uma empresa, com o nome de Misérias Ilimitadas, Lda. No âmbito da Luzboa 2006, a empresa contratou pessoas a partir de um anúncio de imprensa publicado em vários jornais de edição nacional. Uma funcionária recebeu os mais de 300 telefonemas e, em conjunto com o artista, desenvolveram uma pré-selecção solicitando aos candidatos: Nome, Idade, Telefone, Motivação e Ocupação. Uma vez realizada esta pré-selecção, marcou-se uma data com os dezoito candidatos para uma entrevista na rua – Largio do Calhariz, junto à fachada da Companhia de Seguros Fidelidade, numa área com 3m2 que o artista demarcou com fita adesiva metalizada. Nessa entrevista, Cláudia Maranho [sócia, secretária e directora de recursos humanos], para além de recolher a informação relativa a cada candidato [BI, fotografia tipo-passe, CV, fotocópias do BI, n.º de contribuinte] forneceu a cada um deles um boletim de inscrição, um questionário com 14 perguntas e uma declaração visando a cedência de direitos de imagem; nessa mesma entrevista, um fotógrafo contratado pela empresa realizou uma fotografia com todos os candidatos sentados no solo, costas contra a parede de um prédio urbano, em posição de pedir esmola. Com todo este material, o artista escolheu três pessoas que foram finalmente contratadas pela Misérias Ilimitadas, Lda.: Lda. André Magalhães (20), Ricardo Guy (20) e Bruno Gomes (30).
No dia seguinte, Núñez Gascou marcou outra entrevista com os seleccionados para lhes explicar em que consistia o projecto, ministrar um workshop na rua e assinar um contrato com cada um. O trabalho consistiria em pedir esmola, junto de uma mala de couro negro e um cartaz em que foram montadas frases em néon vermelho, tipicamente utilizadas por mendigos. Estes trabalhadores desenvolveram a sua função no quadro de um contrato com a duração de dez dias, prevendo 6h de trabalho diárias, com intervalo para jantar, segurança social e o pagamento dos devidos impostos.
Durante os dez dias da Luzboa, Misérias Ilimitadas, Lda. foi apresentada em diversos pontos do percurso e envolvente, procurando tirar o melhor partido dos diferentes fluxos urbanos na área e das condições de acesso às caixas de alimentação eléctrica da rede pública, necessárias para iluminar os néons. Qaundo abordados pelso transeuntes, os mendigos tinham a obrigação de esclarecer a sua situação enquanto empregados da empresa e as suas funções no seio do projecto: pedir esmola e promover a caridade.
Javier Núñez Gasco nasceu em 1971, em Salamanca. A sua prática artística investiga empiricamente, através de processos performativos, as patologias do meio social. Núñez Gasco sente-se responsável pela consciência colectiva, cuja exploração integral, disfarçada de ironia, é o objecto da sua vida e da sua obra.

Outra arte pública, ou a estátua de ferro a arder

Javi apresentou à Luzboa uma peça complexa ao nível da sua produção e das suas virtualidades simbólicas. Misérias revelou-se desde o início não apenas uma obra, mas uma meta-obra, excitando o debate nas margens do que se convenciona o campo da arte. Como no espectáculo da Gulbenkian, tratou-se de um trabalho com regras explícitas e uma discurso luminosamente evidente.

Em outras obras, Núñez Gasco tem colocado em jogo a sua imagem, a sua saúde, a sua identidade, o seu corpo, o seu equilíbrio, o seu ser. São obras que interrogam limites por via de uma disponibilidade para a imolação no palco social. Mas em Misérias Ilimitadas, Lda, Núñez Gasco partiu da proposta exterior de uma metáfora operativa, a Luz, para elaborar uma peça-estrutura, com capacidade estratégica ao nível da sua interrelação com os domínios não apenas da Arte, mas dos Media ou do mero quotidiano da Baixa de uma Capital Europeia. Essa faceta explosiva da peça interrogou formal e informalmente, física e retoricamente, limites e condicionantes da vida em sociedade, numa operação que teria por resultado, para muitos, o típico mal-estar quando somos interrogados no campo da ética, com todas as suas implicações, nomeadamente comportamentais e jurídicas.

Se o trabalho de Núñez Gasco sintetiza um modelo de reflexão individual projectado em múltiplas citações de habitus sociais – com destaque para o ‘mundo da arte’ que subtil mas demolidoramente manipula em nome de um projecto de vida que da Arte retira tudo e nada – não deixa de ser ele próprio a colocação em marcha de um conjunto de dispositivos que releva de uma ciência [do] social, radicalmente experimental.

Núñez Gasco propõe uma arte intersticial nas estratégias de ocupação dos espaços, difusa nas consequências comunicacionais, mas absolutamente controlada nos seus limites e estruturas formais [eis o traço genérico dos maiores artistas, pelo menos daqueles cujo trabalho é simultaneamente um modelo em aberto, transparente e acessível a qualquer interessado]. Por isso é quase irrelevante discutir-se a dimensão estritamente estética – performance, happening, instalação, denúncia, provocação, paródia…? – e muito mais interessante inferir os traços de uma táctica de sobrevivência moral num mundo absurdo e alienado. Não é desta que voltarei a Kafka, ainda que fosse ocasião fácil; apenas porque importa mais, nos limites deste texto, explicitar como uma obra que é profundamente dependente dos media – essa hidra do ‘baixo’– é ao mesmo tempo um território de liberdade, consciência e autonomia. Não era preciso mais para considerar esta a arte possível e capaz para o tempo-écran que nos cerca.


Para o campo cultural, embevecido na sua taste-trip egocêntrica e pequeno-burguesa, terá passado despercebido que, no dia em que a Luzboa era chamada de capa nos principais jornais de referência, os ‘mendigos profissionais’ de Núñez Gasco faziam o pleno das contracapas dos tablóides e jornais sensacionalistas. Com direito, nos dias seguintes, a um bom número de conversas cruzadas na blogosfera. Réussite de uma cedência à linguagem media? De todo: tão só a eficaz manipulação de uma linguagem plástica como poucas – a retórica – para expor um convincente mecanismo de debate sobre aspectos tabu para a opinião pública.

Acusação possível, a mesma de sempre: a Arte solucionou ou sequer apontou soluções para alguns dos problemas levantantados [e não estou a falar dos mais evidentes]? Se o retorno crítico ao situacionismo parece ser um traço da contemporaneidade, tiene mucho de metafísica barata, una suerte de cóctel en el que el marxismo es, ante todo, una pose ‚correcta‘, cuando la mueca cínica domina todas las actitudes teóricas. Só que… algumas obras evitam o logro do chamamento – o ‚vem‘ que Derrida outorga à Desconstrução ou que subjaz a muita arte participativa – e conseguem ultrapassar a 'pose‘ ou bandeira para se converterem em cerimónias, rituais geradores de experiência, pulverizando a rotina estética, esa hibernación pavorosa en la que están localizadas muchas obras. Obras como esta de Núñez Gasco celebram portanto o Espaço Público, enquanto território urbano e conceito existencial. Porém, num registo que não o da mera teatralização do social, mas de concentração em fluxo, em aberto e em progresso, da própria plasticidade desse social. Recusam o conforto do proscénio [da Arte], dispõem-se como reformulação contemporânea do Realismo. Neste caso, no quadro do que Javier denomina 'ready made institucional‘.


Para a Luzboa, foi acima de tudo uma experiência directa do urbano e das suas consequências, um exercício de contacto com o Outro [mais que o Outro habitual da relação classe dominante / público cultural, não deixo de destacar a importância de inúmeros transeuntes terem tido contacto com o Outro da Arte que foi o próprio Núñez Gasco em acção]. Uma iluminação pois, fugaz, frágil, contestada e inquirida a partir de várias esferas do poder executivo da cidade, mas recebida com absoluto fair-play e curiosidade natural por parte de quem mais interessava atingir: o espectador comum, próximo, em relação.

A essência deste trabalho profundamente humano foi surpreendidada por Malek Abbou numa das suas crónicas: Para além da mensagem que manifesta, o projecto de Núñez Gasco é um combate sempre activo, uma guerrilha táctica contra o peso ubíquo de uma máquina universal de triturar o humano. Mas é Delfim Sardo que nos ajuda a indagar o modo estritamente artístico por via do qual o artista leva o seu projecto avante: É uma constante do teu trabalho adoptar essa postura de te situares ‘do outro lado’, mostrando o reverso da moeda […]? Intrusão virulenta, nas palavras do próprio Gasco, para quem a moeda, afinal, ainda que caindo ao solo, é como se não parasse de rodopiar…

Se a ironia e a dimensão lúdica desta obra prevalecessem, não teria a mesma, quanto a mim, mais interesse que qualquer excrecência da estética do dejecto e da irrisão que povoa inúmeras colecções, museus e exposições. Mas aqui o absurdo é como em Kafka, actuante. Para Javier Núñez Gasco lo artístico se ha convertido en un juego con el que conjurar ese panorama de estímulos inconexos y discontinuos que nos mantienen aferrados a la promesa de premios sabiamente dosificados por el poder adquisitivo. La estadística del éxito convierte esas promesas difundidas para todos en mentiras para la mayoría. Lo artístico se vuelve así una ludopatía invertida, una consciencia crítica que revierte un proceso de reflejos condicionados para afirmarse en la ironía. […] Javier Núñez Gasco ensaya haí una respuesta estética al enorme potencial de estímulos con que nuestro mundo reviste sus ofertas y sus promesas siempre postergadas. Como que indexando comportamentos , o Artista – reencarnação de palhaço-ilusionista-bobo-santo – mapeia-nos incongruências e logros que subsistem não apenas no quotidiano mas na própria filosofia e essência da nossa urbanidade, brutais na sua inevitável banalidade.

A ideologia, aqui, é liminarmente ultrapassada, assim parece; mas o que alguns entendem como religião unipessoal [ainda Trigueros], prefiro ver como contributo único e indivisível, missão portanto, Missão. Daí fazer sentido evocarmos uma obra como Autorretrato, de 2005 . Essa obra que pode ser várias vezes repetida na sua unicidade, em diversos lugares, em diferentes condições da existência, em acto de imolação plenamente auto-justificado porque espiritual. Kafka usava o termo ‘indestrutível’, tão mais apropriado à figura e ao desígnio de Javi.

Em suma, há artistas que tudo o que tocam transformam em resíduo – ver a profunda crítica da Arte Dejectual empreendida por Jean Clair em De Immundo . Há artistas que tudo o que tocam iluminam, e neste caso, também ‘incendeiam’. Há os consumidos e os que por nós, em nós, se consomem. Conferir a luz-em-fluxo tal como enunciada por Christine Buci-Glucksmann em Esthétique de l’Éphémère.


Porque artista em contínua combustão, programar Núñez Gasco numa Bienal é no mínimo um risco; temos medo dele. Como noutro tempo tive oportunidade de ver em Francisco Tropa , sabemos porém, ao mesmo tempo, que cada gesto virá enformado de uma gravidade genial, e de uma graça veloz. Gravity and grace, fugidias como o tempo, mas ali, prontas para um contacto directo com os fruidores casuais: Como artista, quiero dar a mis obras la apertura suficiente para que sea el espectador quien emita el veredicto final. Renuncio voluntaria y conscientemente al papel de juez privilegiado. Es más, siempre espero que las diversas lecturas de cada espectador enriquezcan y superen mis propias expectativas. Personalmente, me siento totalmente inmerso en esas realidades y por eso mismo no deseo valorarlas. Soy, no sólo cómplice sino protagonista, es decir, soy el propio conflicto.

[…]

De obra em obra , num continuum de acções interligadas, o projecto artístico de Núñez Gasco encontrou na Luzboa uma das suas expressões mais felizes, porque mais objectivamente ancorada num real de proximidade, em espaços públicos frequentados por milhares de pessoas que interagiram com a obra aos mais diversos níveis e com consequências absolutamente díspares. Também uma das expressões mais felizes porque concretizou algumas premissas do evento que as obras mais visuais, em sentido estrito, não poderiam empreender. Refiro-me à capacidade de ser simultaneamente hiper-realista e abstracto ; de, por via da Luz, tanto em sentido material como figurado, comunicar e ser Arte, em simultâneo e sem fragilizar qualquer destes pólos da criação contemporânea.

Afirma Gasco: Digamos que coloco interruptores, que expongo ideas para que cada persona saque sus conclusiones. El espectador forma parte de la obra, la completa. Espero eu que o leitor complete, por sua vez, o desafio deste texto: o de procurar surpreender nos Gascos deste mundo, e são poucos, o modelo confrontacional para uma verdadeira ‘arte do espaço público’, esplendor [e miséria?…] da indeterminação e da utopia em construção.


Ver mais em Javier Nuñez Gasco, livro-catálogo sobre Javier Nuñes Gasco, DA2 Domus Artium 2002, Salamanca, 2007. Contém a citada entrevista com Delfim Sardo.

As fotos aqui publicadas são da autoria de Daniel Malhão.

João Ribeiro Pintor




Nem por um momento a pintura de João Ribeiro é uma pintura-janela. Ela é sempre pintura-pintura, acumulação – em sentido literal – de pinturas, sucessivos momentos de implicância que vão saturando o espaço visual de informação gráfica – mesclas de cor, pinceladas e contrapinceladas, texturas e patines, relações forma-fundo – até que, como acontece nestas últimas pinturas, determinadas configurações assumem o protagonismo de signos, normalmente por via da criação de sombreados e outras estratégias, como a posição centrada relativamente ao campo da tela. Tais signos destacam-se do fundo e tornam-se então palavra central de uma narrativa que cumpre ao espectador investigar – e várias pistas são relativamente óbvias.

Claro que estas pinturas não são desenhos com fundos pictóricos, porque cada centímetro da tela tem um investimento de mão, de tempo e de sentido, que convoca a obra, no limite, para um duplo estatuto: ser toda ela pintura, tanto no aparente tema central, como no aparente tema-fundo. Esta dupla – esquizofrénica – vocação afasta de João Ribeiro os que procuram mantras de texturas e cores exclusivamente abstractas, a condizer com os sofás; e também os que exigiriam à obra uma maior inequivocidade dos motivos culturais, maior codificação. Imersas na convicção do criador, ambas as tendências, uma para o silêncio e outra para a comunicação, degladiam-se e tornam as pinturas afinal mais contemporâneas e pós-modernas – no bom sentido – que o que se poderia pensar. Mas não é cínica esta teimosia no pintar de João Ribeiro; é natural, como é metódica a investigação sobre as formas, as opções expositivas, o imaginário (recorrente de pinturas para pinturas). E esta naturalidade revela-se constância, não tanto por se organizar em séries reconhecíveis, mas sobretudo por manifestar a persistência do seu autor em partilhar a sua relação crítica e desconstrutiva com as formas adquiridas da Cultura, o que faz de cada exposição um patamar decisivo num processo de autoconhecimtno (da parte do Pintor) e uma demarcação pública de nós de significado na esfera da Cultura, entendida como nobre plataforma de encontros proporcionados pela elite dos deuses: os artistas.

Deuses de jardim, neste contexto, e no momento que João Ribeiro atravessa, carrega de beleza e ironia desencantadas uma leitura sui-generis da sociedade e da política. Os escorridos aí estão: lágrimas? Raiva? Certamente um gesto bad, pequena radicalidade do pintor-maduro-que-não-quer-deixar-de-ser-ele-próprio. Escorridos e aguados, em contradição libertária e quasi-exuberante metonímia do íntimo indizível, são um aspecto da resposta do João ao calculismo da Arte Contemporânea, que paradoxalmente até podem relançá-lo nos territórios florescentes da Arte do Mercado.

Serão os deuses de jardim – e os deuses de Jardim... – que levam estas palavras para o vocabulário botânico? Ou é a própria essência deste corpo de trabalho, investido de gesto, espírito e cor, que de forma natural (!) nos levam a repensar o nosso lugar no mundo e na sociedade? Mas se o Poder é um tema-chave na abordagem desta pintura, trata-se não somente da constatação e crítica do poder dos pequenos ditadores, quotidianos e burocratas, mas o Elogio do Poder Criador, a moral que borra a pintura, alimentando, senão inaugurando, um Éden de símbolos.


O resto é a música que se ouve no ateliê. Free-jazz. O mesmo imparável ritmo de trabalho e imersão total no som da pintura, que se espera se faça ouvir insolentemente no espaço concentrado da Biblioteca, a si mesmo enquanto arte e a si mesmo enquanto vida microscópica, e afinal soberana, na sua ética e na sua orgânica. Fulgurante Vida de animais e plantas no terreno sincrético do Conhecimento.

TXT para exposição Deuses de Jardim na Biblioteca da Universidade Nova de Lisboa, Monte de Caparica, Maio a Julho 2007

Sunday, September 9, 2007

PESTE NO AVANTE!


'Revolução' foi regresso em cheio na Festa do Avante 2007. Almendra e San-Payo, alma e cérebro desde o primeiro momento, rock-ska-apunkalhado – homenagem a Joe Strummer pelo meio… –… faziam falta, estes tipos… E a verdade é que este refrão te vai dar motivação…!
Como se o tempo, quinze anos, fosse um piscar de olhos, eis o novo tema para se comparar com 'Gingão', da altura em que uns hoje desaparecidos MACHINA POPSUTA, de Piricas – salvé grande vocalista-actor, que olhava o público nos olhos e lhes escarafunchava a alma – impressionavam, e que uns ainda também hoje obscuros MELLERIL DE NEMBUTAL debutavam na 'cena de Alvalade' e até chegaram ao Coliseu… e os KUS davam os primeiros [glup!] acordes…
Nós por cá, nessa altura mítica, ressacávamos do progressivo com os SON CORFU. Num concerto no PAV, Almendra et all no público, viram o nosso vocalista [Rodrigo Gillan Leal] furar o palco depois de um salto épico a terminar a curta apresentação e deliraram…!, e ainda faríamos mais tarde, por uns meses, uns titubeantes POP OVO onde quase-singraram este vosso bloguista no baixo [emprestado pelo dos Melleril, hoje quadro Gulbenkian em Londres] , João Moura na guitarra [mais tarde o Roque, hoje artista plástico], de novo o alucinado-controlado Piricas na voz, João Morais na outra guitarra… Para a história: o almoço de escolha do nome, ali prá Infante Santo. Foi um dia de sol, passado numa tasca em brainstorming delirante até se chegar ao nome. Horas de tempo só nosso, um dia absolutamente solar, infinito e juvenil. Trata-se de um furo lento…. Hoje os furos são outros e foi bom ouvir o 'Furo na cabeça' dos Peste, para colocar memórias no lugar. E no altar.

A checkar:

http://www.youtube.com/watch?v=rch-sxY0Ymk&mode=related&search=

http://www.youtube.com/watch?v=QZK2B_GSTzw&mode=related&search=

Friday, June 22, 2007

Memory Lane III – O blues do Sapo!

Para que é que um tipo quer o punk ou a new wave quando temos isto? Ou será que isto é punk-rock?



E há a questão de por uma vez o palco ser espaço público, transicional, em tensão… no sign of security, regras não ditas, utopia de 3'…

Memory Lane II – Mais solidao…

Outra versão da mesma solidão…

Memory Lane I – A solidao infinita de um bar de estrelas

E agora uma tripzinha nostálgica ao blues-rock como cosmovisão…



Rory Gallagher - A Million Miles Away Irish Tour 1974

Luz-boa: elogio do Efemero – uma modalidade da arte do Espaço PUblico



Este é um breve excerto de um trabalho de investigação em curso, sobre 'A Arte do Espaço Público'.

INTRO

«O ideal de uma racionalidade organizada em torno de procedimentos comunicacionais é um ideal iluminista. A comunicação apresentou-se em termos modernos como uma espécie de garantia colectiva da transparência e do carácter público da razão contra o terreno movediço ou (co)movente das inclinações, das paixões, dos sentimentos, i. e., da afectividade em geral, que consistiria na própria suspensão de uma racionalidade comunicativa. Remetida para o domínio da experiência estética, a afecção teria então como abrigo privilegiado e mais elevado o território da obra de arte. Os processos da constituição moderna da experiência não confirmaram de modo algum esta distinção. Pelo contrário, os fenómenos da comunicação são cada vez mais um território penetrado pela experiência da afecção. A superfície de hiperactividade comunicacional que envolve a totalidade da experiência constitui cada vez mais uma espécie de enorme zona erógena colectiva. A resposta estética mais forte a esta situação foi a da estratégia do choque, apesar de ser um modo radical de afecção, funciona simultaneamente como uma anulação da experiência afeccional, anulação que se reforça aliás com a repetição do próprio choque e que tem provocado nas artes uma espécie de estado generalizado de trauma. Uma das tarefas de uma estética contemporânea é certamente a de reflectir sobre este estado traumático das artes no contexto de uma experiência fortemente estimulada pela comunicação aos mais diversos níveis.» Maria Teresa Cruz«Arte e afecção»


TXT

Na Cultura Contemporânea, há a emergência significativa de um território específico, o de uma arte que acontece sempre que criadores-activistas se engajam em projectos artísticos e culturais de vocação social, que aspiram, no seu discurso e na sua praxis, a simultaneamente reflectir, comunicar e intervir de forma intencional, activa e participada no tecido social.

Falamos de um interesse pelo mundo que não consegue eliminar da equação artística ou do projecto cultural nenhum destes três aspectos, considerados como fundamentais e necessariamente em articulação: um aspecto intelectual e meta-operativo, no sentido de uma reflexão sobre os próprios modelos e premissas conceptuais; um segundo aspecto que poderíamos chamar eminentemente plástico e estético; um aspecto político, no sentido de intervenção na polis enquanto configuração do real e o mundo social, com o meio urbano a funcionar como palco privilegiado para a responsabilidade ética perante a Comunidade.

Não se trata de uma maneira completamente nova de encarar e produzir Arte: experiências históricas anteriores definiram os territórios da Arte Contextual ou da Arte Situacional, hoje relativamente estabilizados e onde encontramos inúmeras acções de referência. Do Surrealismo às Internacionais Situacionista e Letrista, de Beuys a Wodickzo, e com particular evidência nos anos 60, sucederam-se operações estéticas empenhadas num repensar da relação entre a Arte e o Real Social, assumindo uma miríade de formas públicas que oscilam nomeadamente entre, num pólo, acções fundamentalmente individuais, mais ou menos generosas ou exemplares, e Projectos culturais, eventos aglutinados em torno de programas resultantes de redes organizacionais mais complexas, cujos discursos respondem a funções urbanas e sociais específicas, de carácter relativamente institucionalizado.



Pode por isso dizer-se que, perante a multiplicidade de campos e estratégias que constituem hoje o terreno de acção da Arte, é oportuno fazer-se uma reflexão de síntese sobre as várias formas que, nesse âmbito, o sentido do social assume, nomeadamentre em Portugal. Os casos que pretendemos evidenciar são aqueles em que, na contemporaneidade, se conjugam, em equilíbrio dinâmico, no quadro de uma postura transversal e transdisciplinar, e com expressão assumidamente pública, as funções reflexiva, estética e política da intervenção artística.

Por uma questão não apenas de simplificação da nomenclatura, mas de orientação da linha de pensamento que se propõe, aspirando a uma comunicação alargada e generalista, falamos de Arte Pública ou de Arte em Espaços Públicos, ou não fossem ambas as categorias, quer ‘Arte’, quer ‘Espaço Público’, suficientemente latas, abertas e problemáticas para albergar as nossas intenções retóricas.

Na prática, trata-se de fundamentar, com exemplos concretos, sobretudo nacionais, e a partir de uma leitura crítica do panorama artístico português, uma suposição simples: há lugar na Contemporaneidade para uma Arte do Espaço Público, capaz de gerar comunicação, motivação e sentido crítico, num patamar de interactividade social mais complexo e transformador que aquele que define os circuitos e contextos artísticos tradicionais. Essa arte é hoje pontualmente posta em movimento por agentes culturais cujos objectivos, motivações e enquadramento teórico importa relevar, por oposição a posições perante o campo da Arte consideradas imobilistas, conservadoras ou alienadas.

[…]

É com o Barroco que o Efémero faz a sua entrada na História como nova dimensão da arte e da vida. Este efémero barroco é agora «um novo paradigma temporal em que se conjugam o frágil, o passageiro, o perecível e o vão». Nasce deste cadinho um verdadeiro cogito do efémero, que volatizará progressivamente as antigas relações do Ser e do Devir, características da metafísica ocidental e do humanismo da Renascença. Si le passé n’est rien, le futur ne sera qu’un nuage où s’accroche un présent qui fuit. L`Être n’est que son apparaître instable, entre ‘il y a’ et ‘il n’ya oplus’, comme dans la pensée chinoise. C’est pourquoi l’éphémère est un présent intensifié par un manièrisme du temps. […] Car si tout fuit, il faut saisir l’occasion dans une innovation continuée, et pratiquer un maniérisme occasionnel. ‘A ocasião’: eis um conceito-chave que abre a oportunidade para a afirmação do conceito de ‘intenção de ser’ . Eis a oportuniadde para acção, para a performatividade do social, para arte pública.

Se ocasião faz o projecto, a gestão das condicionantes específicas determinam-lhe a essência, despudurodamente, para aqueles que esperariam, no caso da Arte Pública, que a Obra fosse um mero transpor para o espaço Urbano de uma Ideia pré-concebida em ateliê. Se isso acontece com muita frequência, certamente que na Arte Extramuros a premissa é outra, a de auscultar-se o território e as suas energias, o espaçao na sua multiplicidade de componentes, nomeadamente a social, numa fase do projecto em que as decisões estão mais em aberto que definidas. Isto explica uma obra como Coração de Jana Matejkova [Luzboa, 2006]; e sobretudo o processo criativo que a levou às soluções apresentadas. Vale a pena considerar os primeiros ante-projectos: instalações in situ em momentos de um previsível percurso, todas com sabor a conquista de espaços problemáticos – abandonados, utilizados pro comunidades marginais, que artista se propõe habitar com obras-interface, como no caso extremo em que propõe uma carreira de tiro, com alvos aplicados comos e fossem azulejos num espaço-reuína nas traseirtas de um hotel de luxo.

O facto de a Bienal acabar por não passar por ali vai levar a artista a desenvolver uma à partida mais pacífica: um ‘electrocardiograma dacidade’, a instalar ao longo de um eixo longitudinal, o passeio pedonal que acompanha o limite do Jardim do Príncipe Real na Rua da Escola Politécnica. A Chegada a Lisboa implica de imediato um conjunto de decisões profundas: o labirinto longitudinal e bidimensional tranbsforma-se em habitar de um espaço circular em torno de uma velha árvore; estabelece-se uma empatia com o espaço físioco e o espaço social daquele lugar – ali se encontra um bar-restaurante que fechará em breve, previsivelmente nos últimos dias da Bienal. A artista e o seu colaborador, Carlos de Abreu, iniciam o trabalho árduo, diário, metódico e regular de instalar naquele espaço público um labirinto de luz, agora emaranhado de traços e curvas, entrecuzando-se como desafio ao corpo. Esse desafio é agora um work in progress que continuaria para lá do início da Bienal, caso mais dias houvesse; que se tornou uma obra-habitar, com assistentes e vizinhos envolvidos nas decisões diárias; com um gesto final da artista que procura celebrar aquela relação por via de uma performamnce no último dia do Bar. A disponibilidade da própria Organização para ‘fechar os olhos’ perante uma ‘festa’ não autorizada apenas comprova que, para a Organização, a obra era o todo processual, que de resto, face ao contratualizado e maquetado tinha diferenças substanciais (restou a cor, a ideia de labirinto, nada mais].

Coração exemplifica a ideia de celebração do efémero como conquista do momento favorável. O artista extramuros que sabe da potencialidade do efémero empreenderá uma operação estratégica de captação do tempo, um tempo que resgata aos fluxos imperceptíveis, aos intervalos das coisas, dos seres e da existência. A obra torna-se por essa via um convite à compreensão do tempo – um aforismo, um ensaio… E não apenas para os criadores: para os transeuntes é um desafio à sua própria conquista do tempo, o tempo de estar ali, de aderir ou não, de imergir ou não numa proposta existencial e política disponível para o imprevisível.

Em espaço urbano, como o mostram inúmeros eventos da Extra]muros[, essa estética torna-se rapidamente uma política, no sentido de Arendt, que foi quem fez das aparências e de uma visibilidade plural as próprias condições para a nexistência de um verdadeiro Espaço Público. Acósmico , segundo Buci-Glucksmann, precisando: Il convient donc de différencier léphémère du seul instant comme ‘coupure du temps’ au sens aristotélicien, mais aussi du seul présent vécu. L’éphémère est un art du temps, qui consiste à l’accueillir, á céder au temps (tempori cedere), et à l’accepter tel qu’il est, fût-il imprévisible.

O Estoicismo de Montaigne estabeleceu um modelo-chave para esta acepção do tempo como vazio-cheio, oportunidade de redenção, palco da individualidade, algo que de forma mais directa e sucinta se poderia definir como ‘arte-do-efémero’: Il est beaucoup plus proche de la quête de l’intervalle propre à la culture japonaise du Ma (espacement, intervalle, vide) que de la seule jouissance hédoniste du présent qu’il implique. Car tout passage est fugitif et fragile, et rentrer ao coeur de l’occasion comme ‘rencontre’ implqiue de traverser le temps, de lui donner son rhythme, ses aiguillons, ses intensités et ses intranquilités. Una sagesse toute musicale en somme qui me fair penser aux Papillons d’un Shumann, ou aux vibrations et suspensions sonores des Glissandi de Ligeti. L’éphémère n’est pas le temps mais sa vibration devenue sensible.

Não poderia haver melhor descrição do trabalho de habitação temporal que os belgas Het Pakt empreenderam nas Escadinhas de São Cristóvão, em Lisboa. A peça aparentemente mais frágil, mais dependente da proximidade dos [apesar de tudo poucos] moradores e seus humores, recorrendo aos dispositivos mais primários de produção de luz e imagem [captação por pin hole, projecção por projectores de slides] encontrou o registo certo, no espaço adequado [pela sua configuração de anfiteatro controlado], para um momento da Bienal que superou todas as naturais expectativas criadas pelo conceito inicial. Se este era prosaicamente o de celebrar a alma [musical] de uma cidade, criando um ‘coro urbano’ de vozes individuais que, juntas, compusessem uma espécie de consciência-memória colectiva, proporcionando a partilhade emoções profundas [decorrente de um processo de composição das imagens participativo e aberto à comunidade e às próprias equipas de produção executiva da Bienal]; o resultado foi uma rara oportunidade de milhares de visitantes se verem confrontados com uma instalação que, para regressar aos termos estéticos mais capazes de a descrever, permitia um raro tipo de fusão entre espectador e obra, um ‘fazer corpo com o dao’ .



Si bien que tout est dans un temps vouéà l’éphémère, et à cette ‘impermanence’ japonaise (mujô) ou, très curieusement, l’esthétique du temps et des manières rejoint certaines préocupations de Pessoa, dans une même quête de l’intervalle.

Algo de semelhante terá acontecido no momento partilhado do concerto de Adriana Sá, também no rosto boticelliano de Gerald Petit, da Débora. Em todos os três casos, embora em graus diferentes, a intranquilidade – o desassossego, para permanecer em Pessoa – que caracterizam a forma nostálgica do efémero, enquanto ‘nostalgia do possível’, dão lugar auma forma mais diáfana, ligeira e positiva. Petit no topo do Percurso Azul tinha essa função de fusão-com-o-horizonte, de reencontro com o território e a paisagem, de imersão na noite, animada e viva [os pontos LED tremeluziam, numa imagem equidistante do kitsch e da estética publicitária, ainda que devendo a ambas o poder de atrair imediatamente.



Il faudrait donc distinguer au départ deux formes de l’éphémère. Dúne part, un éphémère melancolique, constitutif du baroque historique ou du moderne (Baudelaire, Benjamin, Pessoa, etc.), qui est d’emblée aussi ambivalent que le clir-obscur et le spleen allégorique. Et, d’autre part, un éphémère positif, plus exoplicitement cosmique, qui traverse déjà l’histoire du regard en France au XIX siècle (cf- Monet), et qui m’a paru servir de ‘pont’ théorique entre l’Asie et l’Occident. Se houve intervenção na Luzboa capaz de condensar esta positividade, para mais num plano estritamente festivo, convivial, foi Demo_polis dos Moov. Aí sim, o efeito efémero se encontra – como no airy nothing de Shakespeare – inseparável do seu afecto como energia. Na Lisboa Capital do Nada, o cordão humano conseguiu por instantes condensar esta positividade vazia do efémero, a gratuitidade de um gesto magnânimo, tão fútil quanto absolutamente necessária uma ideia de Comunidade em construção. Tal como aconteceu ainda nesse ano com os cinco sucessivos recitais [colagens?] de Belcanto, em cinco diversos espaços-tipo da cidade de Lisboa, a peça de Catarina Campino que mais claramente enunciou um efémero irrepetível, condensadíssimo.



Mas com a Luzboa esta ciência urbana que é captar por meio de dispositivos artísticos a energia comum, do social, ganhou formas mais adequadas, mais directas: um kairós fugaz, característico dos espíritos disponíveis, desdobra-se em todas as vibrações da luz, em tudo o que cria uma instabilidade cintilante, jogos de reflexos e pulsações visuais. Torna-se instável. Aparência instável e arte da diversidade. Discurso das realidades fluídas – por aí profundamente anti-institucional, anti-burocrático, porque cadinho do estar-com e não do estar-sob. Como aconteceria até emmso com a Lua de Peinado, um objecto de todos, que todos tocaram, infantilmente. Peinado conseguiu oferecer à cidade não apenas uma imagem-ícone (sempre útil para pazer passar a comunicação na era do audiovisual ultra-rápido), mas um decoração do espaço comum de uma praça, de tal maneira que também ali se tornou positivo o tempo-fluxo, ali onde se deu uma evidente metamorfose, uma simulação que convidava à momentânea e cúmplice suspensão do juízo.

A arte efémera é o discurso artístico deste Tempo-fluxo. C’est précisément ce temps-flux, venu d’Héraclite, qui sera ordonné par l’Être par Platon. Car la vraie lumière ne viens pas des apparences, mais du soleil intelligible de la Verité ou de la Beauté (Da República). Uma instalação urbana [como a de Peinado], pode estar parcialmente assente nesta ideia de uma luz ontológica – que serviu muito tempo de paradigma artístico, ao seu ideal e às suas pesquisas sobre a ordem e de harmonia entre partes. Mas a sua efemeridade, celebração do fluxo, condu-la para um território que já Malevitch entrevira, no texto «A Luz e a Cor». Nesse texto, o pintor russo coloca em causa o estatuto da luz na arte, contestando uma luz que ilumina a verdade e desenvolvendo um anti-platonismo da ‘intensidade colorida’, onde o novo corpo pictórico é construído pela luz em si. Malevitch toca o essencial. Entre le voir et le savoir, la peinture et la pensée traversent toute une série de prismes, où la lumière ‘acquiert des significations réelles’, et cette treversée est l’indice dúne sorte de matérialisme lumineux, qui sera au coeur de l’art cinétique comme de l’art virtuel.

[…]

De Gasco a Peinado, dos Moov a Petit, foi isto o que se passou. E é esta fluidez e abertura que chocou quem procurava tanto a obra definida e formalmente limitada, disponível para ser criticada enquando configuração física, ou quem procurava o espectacular imediato, sem conceito mas capaz de impressionar retinianamente.

É certo, a Estética do Efémero deve a sua afirmação progressiva a muita da arte do século XX, apaixonada pelos vidros, os espelhos, as transparências, e depois os tempos-fluxo. E os virtuais, que emanam ainda dessa ‘radioactividade pneumática’ que Platão atribuía à beleza ‘não preguiçosa’, à sua graça vivificante e à sua capacidade de animar mesmo as qualidades mortas. O efémero de um je-ne-sais-quoi, que age como sedução tem uma genealogia que a Luz-boa vai procurando surpreender.

Uma leitura de
Christine Buci-Glucksmann, Esthétique de l’éphémère, Galilée, Paris 2003
Imagens: www.luzboa.com